O CANCERIANO
PARTE 3 - DURANTE
É nesta parte da história onde as verdades começam a se fragmentar e as meia
histórias surgem com suas companheiras, lágrimas, dedo no cu e gritaria. Então,
esteja preparado.
A conversa se moveu com tranquilidade, como as águas do signo de câncer, mas como o ser humano é de música e minha vida jovem adulta parece movida por clichês, foi justamente um arquivo mp3 a dar o sinal
de fumaça sobre onde eu estava me metendo. Me importei? Óbvio que - ingenuamente, mas nem tanto - não.
Por acaso o recado da vez
era “Fuzuê” do – na época – novo álbum de Thiago Iorc. Cantor que decidiu renascer das
cinzas como uma bela fênix para lançar fogo na minha vida. Como disse no
primeiro texto, Thiaguinho Iorc corre aqui, a culpa é sua. Sim, eu culpo
músicos aleatórios ao invés de meus hormônios e decisões precipitadas.
Conversa vai, malícia vem. Acabei por descobrir que o canceriano,
antes tão parecido aos meus olhos com um libriano ou talvez ariano, na verdade
era o mais puro estereótipo de câncer. Dava um valor tremendo a família - inclusive, amava ouvi-lo falar sobre os irmãos e a mãe – sentimental, entregue, um tanto quanto
resistente a mudanças e o medo de rejeição.
Em meio as músicas e conversa solta, começou a tal brincadeira
sobre ele não saber flertar. Ata bom, senta lá, Santo do pau oco. Tentei explicar
por mensagem, mas digamos que isso é algo mais olho no olho. Resultado: O Canceriano e eu teríamos uma “aula de flerte”.
A professora: Eu.
O recado dele: Venha sozinha. Eu sou a companhia. (E não sabia flertar, né, bonito???)
O tesão: Ebaaa!
A racionalidade: Burra!
Se você já se envolveu na história desse rolo ao ponto de estar torcendo para
chegar logo a parte onde nos encontramos para saber se rolou mãozinha boba,
você deve ter esquecido pontos importantes. Assim como eu enquanto flertava
com o Canceriano.
1. Cacto era interessada no ser humaninho.
2. O motivo de minha conversa com ele foi inicial e unicamente para
esclarecer a situação da reunião.
3. Eu já havia passado por uma situação muito parecida antes, mas
com papéis opostos. (História para outro post)
Resumindo, antes de seguir em frente nesse possível rala e rola,
eu precisava falar com Cacto, mas como? Não dá para simplesmente chegar em uma
das suas melhores amigas e dizer:
“Hey, sabe o cara que eu achei ser gay, mas tinha namorada,
mas na verdade ele não tinha mais? Sim, aquele pelo qual nós três brincamos sobre quem
pegasse primeiro tudo bem, mas que deu rolo porque a amiga dele e você se
bicaram e isso ferrou teu sentimental? Ah, então...”
Após passar o fim de semana treinando o que dizer, mentalmente e
na frente do espelho - como um pré adolescente de filme norte americano antes de
chamar a líder de torcida loira, magra e chata para o baile - acabei por usar o
clichê "precisamos conversar".
No entanto, o que eu não esperava era ela responder que já sabia sobre o que eu queria falar. Com esta deixa inesperada saímos da sala, porque no meio do fogo é mais importante o bem estar de seus amigos - que podem te ajudar a esconder um corpo se necessário - do que o professor falando sobre suas qualidades e desgraças irrelevantes para seu trabalho futuro. Ah não ser que você precise usa-lo como fonte principal para uma reportagem futura, nesse caso, era melhor você ter escutado.
Enfim...
Cacto realmente sabia o motivo, pela simples razão de eu ser burra o suficiente para não ter escondido o
celular. Na sexta-feira anterior a tela do aparelho havia acendido com
notificação e apesar de ser apenas uma mensagem qualquer, ela me explicou,
juntou as peças e tcharam!
Ela pareceu levar bem a situação no momento, mas eu deveria saber os danos a seguir. Lembrar de como ela geralmente assume o papel de forte, assim como Abobrinha, mesmo quando por dentro estão se partindo.
Lembro-me de quando seu avô se foi. De como esperei ver
refletido nela a mesma dor sentida por mim, aos seis anos. Na época fugi para o
banheiro com um livro e rabisquei todos os rostos dos personagens de contos de
fadas. Foi o primeiro contato com a morte a me fazer crer que nem um príncipe iria
surgir em um cavalo branco. Se minha fada madrinha, minha vó, havia partido, como poderia
ele me encontrar?
A verdade é que até hoje fujo para banheiros quando a dor ou
alguma nova realidade cruel me bate a porta. Esta sou eu. A garota que é
incapaz de chorar na frente de estranhos, mas é uma Maria Mole com os amigos, família
e em banheiros. No entanto, quando o avô de Cacto se foi ela não se escondeu ou nos mostrou sua dor. Apesar de eu já tê-la visto no chão do banheiro, também. Pois é, o piso do segundo reservado do banheiro no primeiro andar já pode estar em nossa lista de melhores amigos do Instagram.
Lembro-me daquele dia, logo após a volta do dia funesto. Cacto chegou com seu vestido de sempre, o preto de bolinhas brancas, com a
mesma expressão plena habitual. Fez os trabalhos, foi a aula e até sorriu. Não
era de fato um sorriso verdadeiro. Era o mesmo sorriso que se dá quando alguém
lhe diz “Oi. Tudo bem?” Nem sempre a resposta é sim, mas você sorri e acena
porque sabe que é só um cumprimento padrão. A maioria não quer de fato saber
como você está.
Ainda assim, ela sorriu apesar de estar em queda livre.
Então, em maio, quando ela disse “Vai lá, amiga. Tudo bem.” Eu deveria saber
das consequências a seguir. Na verdade, por mais que seja duro admitir, uma
parte minha deveria saber, mas esta foi ocultada e posta no modo avião por
algumas horas. Apenas o Canceriano e aquela atração sem palavras definidas no
modo online.
O encontrei no intervalo entre minha aula e seu ensaio. O
bloco de música e saúde estava calmo, com os primeiros indícios da
aproximação do inverno no friozinho no ar. Nos sentamos em uma mesa quadrada em uma espécie de
pracinha, quase vazia, para nosso deleite. E, sem nenhuma surpresa, o primeiro
assunto que falei foi algo estranho:
“Cara, é meio escurinho esse bloco, né? Se duvidar dá para
arrastar um corpo por aqui.”
O Canceriano riu e entrou na brincadeira. Duvidou de que eu
conseguiria arrastar seu corpo. E como faríamos muito no decorrer dos próximos
meses, fizemos uma aposta. Sem prêmios, apenas uma aposta por uma “rixinha”
criada de assuntos aleatórios. Depois disso falamos sobre tudo e nada. Os
minutos passando rápidos, entre aproximações e afastamentos.
Veja bem, quando falo sobre a falta de iniciativa de
Canceriano, não estou brincando, passamos mais de uma hora nos enrolando no
joguinho de imãs. Teve um momento inclusive, onde os narizes – que palavra
engraçada – estavam quase encostados e nem um dos dois foi capaz de dar o passo
final. Ainda por cima a frase proferida por ele foi “está nervosa?”. Eu ri,
disse não e me afastei continuando o assunto que havíamos parado.
A conversa prosseguiu e o cu doce também, até seus amigos
telefonarem por estar atrasado para o ensaio. Como diriam os filósofos
contemporâneos Telletubbies “Era hora de dar tchau”. A parte medrosa, cômoda e racional estava totalmente satisfeita.
Sem problemas. Eu voltaria para minha sala totalmente em paz.
HÁ HÁ HÁ HÁ – Zombou o destino.
Dei um beijo em sua bochecha, mas o tempo pareceu dar aquela
paradinha e última chance para a leonina e o canceriano mudarem de ideia. O
canceriano mudou de ideia, talvez seu ascendente tenha ficado de saco cheio e
assumido o controle, porque ele virou.
Aqui precisamos de uma observação: Meu primeiro beijo havia
ocorrido há um ano atrás (histórinha engraçada que não cabe aqui agora), nele
descobri que o corpo humano foi programado para saber beijar, assim como
cachorros para saber nadar. Ninguém os ensinou, é apenas instinto. Um instinto
muito bom a propósito, se permitem dizer.
Agora, voltando as duas pessoas se beijando na
pracinha... Quando acabou descobri duas coisas interessantes:
1. De fato, o flautista sabia o que fazer com a
boca.
2. Eu ainda sabia beijar depois de um ano.
Cheguei na sala parecendo que o rosado dos lábios - que se
foi com o gloss – tinha fugido para as bochechas. O celular vibrou, mas de repente estava
mais preocupada com o conteúdo da sala do que com o da mensagem. É apenas antes e depois de
você fazer ou passar por algo que a realidade e a adrenalina batem, não na hora da ação. Naquele momento, ao ver a
expressão da minha amiga, aquela de quem está fingindo estar bem, meu grilo
falante só sussurrava uma mensagem ao meu ouvido:
“Parabéns, Rosalina. Você de fato arrasa corações, mas
este era o da sua amiga. Deveria ter cuidado melhor dele.”
As coisas apenas desandaram antes de serem acertadas, mas já
falei demais por hoje. Esperem pelo próxima postagem, please.
BEIJOS DOCES,
ROSALINA

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